Dia desses, conversando com a amiga e colega Vanessa Britto, surgiu o papo sobre "o que passar aos nossos filhos." A Vanessa, espirituosa do jeito que é, disse que seus filhos estarão liberados dos deveres de casa, desde que leiam todos os livros do Harry Potter. Confesso que não consigo pensar em nenhum livro em especial para deixar aos meus filhos. É claro que eles lerão Machado de Assis, de quem sou fã incondicional. Ou melhor, vão dormir ouvindo suas histórias. Se isso não despertar o interesse das crianças, não posso fazer nada, mas ao menos terão o estímulo inicial para despertarem para a leitura.
Mas a herança que meus filhos realmente ganharão de mim é multimídia. São músicas de todos os estilos. Músicas de qualidade. Vão ouvir Charlie Parker, John Coltrane, Miles Davis. Vão ganhar CDs (que provavelmente já estarão em desuso) de grandes nomes do Pop, do Rock, do Samba. Vão conhecer ritmos latinos e música erudita, ainda crianças. E se ainda assim quiserem ouvir Funk ou bandas coloridas, não os proibirei, pois pelo menos terei tentado despertar o gosto pelo que é belo.
Quero guardar DVDs de The Big Bang Theory e de Two and a Half Man para que eles entendam o que é um seriado de humor. Quero que assistam House, Lie to Me e Lost, para entenderem como seriados tão diferentes podem ser igualmente geniais. É provável que seriados melhores surjam até lá. Mas, ainda assim, quero que vejam aquilo que eu julguei genial muito antes de pensar em ter filhos. E mesmo que eles discordem de mim e prefiram algo bem diferente, ainda assim vou ter a certeza de que, ao menos, tentei transmitir a eles aquilo que eu assisti de melhor.
Sobretudo, não espero que eles se apaixonem pelo jornalismo, por animação, por jogos idiotas, por música instrumental. Não espero que eles gostem de fotografar, editar áudio e vídeo. É claro que ficaria bem feliz se eles tivessem interesse por alguma dessas coisas. Mas não é isso que importa. Só espero que eles aprendam a julgar por si mesmos o que tem ou não qualidade, o que é bom ou ruim. Se vão seguir os passos do pai e encarar o louco mundo do jornalismo, isso é papo para outra crônica. Daqui uns vinte anos a gente conversa.
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segunda-feira, 6 de setembro de 2010
domingo, 15 de agosto de 2010
Frustrações dos meus pais, frustrações dos seus filhos
A geração dos meus pais não cresceu na frente de um computador. Alguns vão dizer "tá, e qual a novidade?", mas acreditem, para muitos jovens, é difícil pensar que celular, internet e ipod não faziam parte da lista de natal das crianças que hoje chamamos de pais. Minha mãe não ficava grudada ao celular, no meio da aula, esperando uma mensagem de algum namoradinho. E meu pai não mandava sms para todas suas colegas. Simplesmente porque o celular não estava na mão de cada jovem, como algo banal mas imprescindível à vida.
Meus pais nunca reclamaram porque seus ipods deixaram de funcionar, ou porque a conexão da internet estava ruim. Não em sua juventude. Na verdade, nem sei se eles sabem o que é um ipod. Quando começaram a namorar, o símbolo do que sentiam era uma rosa roubada do jardim da vizinha, presente que meu pai entregava à minha mãe diariamente, e não o simples fato de mudar o status do orkut para "namorando". Até o amor parecia algo humano na juventude de meus pais.
Hoje, somos infelizes se, simplesmente, estamos sem rede no celular. Palavrões são ditos o tempo todo se a internet cai. O status do orkut e as frases do twitter resumem a vida das pessoas. Temos muitos amigos, muito mais do que meus pais tiveram em sua vida inteira, mas não os conhecemos. A vida só existe se puder ser resumida em 140 caracteres. O resto é resto. São frivolidades daqueles velhos e caretas que não são capazes de compreender o quanto nossa é difícil. Eles não entendem o sofrimento de uma frase no twitter, ou a importância de uma declaração no orkut. Falta de romantismo moderno.
Podem defender que isso é a "evolução", não estou nem aí. Quando ouço meus pais falando sobre os atos de romantismo, sobre o quanto era bom estar com os amigos (estar de verdade, e não em convenções de redes sociais), fico com a certeza de que nasci na geração errada. Sou apaixonado por essa tecnologia que facilita nossa vida e nos aproxima das pessoas, mas questiono: que evolução é essa que mecaniza os sentimentos e nos frustra com coisas tão banais? Algumas coisas não podem ser ditas ou sentidas apenas em 140 caracteres.
Meus pais nunca reclamaram porque seus ipods deixaram de funcionar, ou porque a conexão da internet estava ruim. Não em sua juventude. Na verdade, nem sei se eles sabem o que é um ipod. Quando começaram a namorar, o símbolo do que sentiam era uma rosa roubada do jardim da vizinha, presente que meu pai entregava à minha mãe diariamente, e não o simples fato de mudar o status do orkut para "namorando". Até o amor parecia algo humano na juventude de meus pais.
Hoje, somos infelizes se, simplesmente, estamos sem rede no celular. Palavrões são ditos o tempo todo se a internet cai. O status do orkut e as frases do twitter resumem a vida das pessoas. Temos muitos amigos, muito mais do que meus pais tiveram em sua vida inteira, mas não os conhecemos. A vida só existe se puder ser resumida em 140 caracteres. O resto é resto. São frivolidades daqueles velhos e caretas que não são capazes de compreender o quanto nossa é difícil. Eles não entendem o sofrimento de uma frase no twitter, ou a importância de uma declaração no orkut. Falta de romantismo moderno.
Podem defender que isso é a "evolução", não estou nem aí. Quando ouço meus pais falando sobre os atos de romantismo, sobre o quanto era bom estar com os amigos (estar de verdade, e não em convenções de redes sociais), fico com a certeza de que nasci na geração errada. Sou apaixonado por essa tecnologia que facilita nossa vida e nos aproxima das pessoas, mas questiono: que evolução é essa que mecaniza os sentimentos e nos frustra com coisas tão banais? Algumas coisas não podem ser ditas ou sentidas apenas em 140 caracteres.
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