sexta-feira, 2 de março de 2012

Celito de Grandi e o Boletim de Ocorrência


Desde o início de janeiro, as edições dominicais do jornal Zero Hora nos presenteia com uma coluna especial sobre crimes marcantes do Rio Grande do Sul (ou que envolvem gaúchos). "Boletim de Ocorrência" está sob responsabilidade do jornalista e escritor Celito de Grandi e é uma reconstituição de casos célebres que passaram pela carreira do jornalista.

Para quem não conhece, Celito tem mais de 50 anos de experiência e já trabalhou nos principais veículos de comunicação do Rio Grande do Sul. Ao longo do tempo, entrevistou figuras antológicas como Leonel Brizola, Mário Quintana e Érico Veríssimo. Ele também é reconhecido como um dos mais importantes memorialistas do estado, pela profundidade e intensidade de suas pesquisas, principalmente no que se refere ao cenário político.

Euclides Kliemann
De Grandi também é autor de "Caso Kliemann - A história de uma tragédia", livro que traz a história de um dos mais misteriosos assassinatos do estado. Deputado eleito por Santa Cruz do Sul, Euclides Kliemann morava em Porto Alegre com sua esposa, Margit. Certa noite, ao visitar amigos que moravam próximos à sua residência, preocupou-se com a demora de sua esposa em aparecer, já que ela prometera chegar logo.

Kliemann foi para casa procurar sua esposa. Ao entrar em sua mansão, encontrou o corpo da mulher jogado ao pé da escada. A cabeça estava em pedaços. Durante a investigação, constatou-se que Margit foi atacada no segundo andar, tentou fugir, mas foi perseguida. Golpeada, caiu da escada e morreu a poucos metros da entrada da mansão. Kliemann foi considerado suspeito.

Pouco mais de um ano após o trágico assassinato, o deputado concedia entrevista a uma rádio santa-cruzense quando o estúdio foi invadido por um vereador local, inimigo político de Kliemann. O vereador acusava o deputado pelo assassinato de Margit. Com um tiro à queima-roupa, matou o deputado dentro do estúdio da rádio. E o assassinato da esposa, ainda hoje, não teve solução.

Essa foi a história mais notável do gênero dentre as que Celito cobriu. Mas, ao longo de 50 anos, outros tantos crimes (tão bizarros e assustadores quanto as do caso Kliemann) acabaram esquecidos ou sem solução. E são esses crimes que Boletim de Ocorrência retrata, semanalmente. É uma oportunidade para conhecermos um pouco mais sobre casos que fazem parte da história do Rio Grande do Sul. Mas também, é a chance de não deixar cair no esquecimento algumas tragédias que não devem ser esquecidas.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Jornalismo em quadrinhos: um formato alternativo de comunicação

Existe jornalismo para além das palavras ditas e escritas, para além dos mecanismos convencionais e do formato padrão ao qual estamos habituados. E um exemplo claro disso pode ser encontrado no Catraca Livre.

Para quem não conhece, o Catraca Livre é um projeto jornalístico com foco cultural desenvolvido por estudantes universitários de São Paulo com colaboração do jornalista Gilberto Dimenstein, um dos mais premiados jornalistas brasileiros. Para além do jornalismo tradicional - e foi isso que me chamou a atenção -, o projeto busca formas diferentes de comunicação. E a que destaco neste post é a reportagem em quadrinhos.

Acredito que o jornalismo em quadrinhos é uma das formas mais puras e divertidas de tratar uma informação. É algo que tem o poder de surpreender, de prender o leitor, de informar e esclarecer com um risco menor de ambiguidades do que em qualquer outro formato. Mas, infelizmente, também é um formato pouco valorizado e (pasmem!) com pouca credibilidade por parte do "leitor comum". Isso porque, aqui no Brasil, ainda se cultiva a ideia (errônea) de que desenhos, cartoons, quadrinhos e afins são formas menores de se transmitir uma mensagem.


Ainda assim, é possível encontrar no Brasil algumas experiências de reportagem em quadrinhos muito interessantes. E uma das que destaco é esta reportagem especial para homenagear o centenário de Nelson Cavaquinho. As doze páginas, com texto de André Carvalho e arte de Alexandre de Maio, trazem falas de Nelson ditas em várias entrevistas ao longo de sua vida. Além da obra visual, ainda é possível ouvir a voz do compositor e uma de suas canções.

Mas antes de entrar no mérito de outros trabalhos do gênero na país, é interessante lembrarmos que jornalismo em quadrinhos não é nenhuma novidade. Desde o século XVIII, quando o cartunista italiano Angelo Agostini chegou ao Brasil, que os jornais nacionais contam com tiras e ilustrações em suas páginas. Foi nas páginas dos jornais que as histórias em quadrinhos se desenvolveram até migrarem para produções independentes.

Maus - Pulitzer de 1992


Dentre os principais expoentes deste tipo de obra, podemos destacar Art Spiegelman. O Sueco de 64 anos é o único autor de quadrinhos que ganhou um prêmio Pulitzer - principal premiação do jornalismo norte-americano. Na década de 90, atuou produzindo charges, ilustrações e as capas da revista The New Yorker.

Outro repórter de quadrinhos renomado é Joe Sacco. Natural da República de Malta, mudou-se ainda jovem para os Estados Unidos, onde formou-se em jornalismo. Resolveu unir à paixão seu talento para o desenho. Nesse sentido, realizou importantes coberturas apurando as informações com o rigor jornalístico, mas trabalhando a reportagem com seu talento para os quadrinhos.  Dentre seus principais trabalhos está "Notas sobre Gaza", reportagem sobre os conflitos entre palestinos e israelenses na Faixa de Gaza.

No Brasil, em 2007, três jornalistas baianos fizeram uma experiência diferente em seu TCC. Resolveram fazer uma grande reportagem em quadrinhos sobre o movimento estudantil baiano. Para isso, contaram ainda com a ajuda de dois ilustradores e um designer, responsável pela diagramação dos quadrinhos. Em 30 páginas, a reportagem "Vanguarda: Histórias do Movimento Estudantil da Bahia" conta fatos importantes que ocorreram de 1942 a 2003.

Infelizmente, experiências jornalísticas como Vanguarda e os quadrinhos do Catraca Livre ainda são exceções. Vemos tiras, charges, cartoons, caricaturas, mas temos pouquíssimos jornalistas dedicados a trabalhar reportagem propriamente dita em uma mídia alternativa. Talvez exista ainda um certo receio por parte dos veículos em apostar em ago tão ousado. Ou talvez, não se tenha profissionais disponíveis no mercado. Neste caso, que se criem cursos e especializações. E que experiências como estas não se resumam a trabalhos acadêmicos. A minha esperança é que as mentalidades mudem, que não se veja o jornalismo em quadrinhos como algo trabalhoso e pouco rentável, mas sim como uma solução atrativa para conquistar os leitores mais jovens e surpreender os mais velhos.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Sobre os exageros do caso Eloá

Hoje, 16 de fevereiro, foi o último dia de julgamento de Lindenberg Alves Fernandes (25), algoz do caso Eloá. Você provavelmente acompanhou a repercussão do julgamento na TV, nos jornais ou na internet, querendo ou não. O caso, que ganhou os holofotes em 2008 (quando Lindenberg invadiu a casa da ex-namorada, a manteve refém por quase 100 horas e a matou quando a polícia invadiu o local), finalmente teve seu desfecho.

Lindenberg Alves Fernandes
Junto com o julgamento, ressurgiram críticas feitas na época à policia (e sua demora em agir) e à mídia (a forma como o caso foi tratado durante as 100 horas de cárcere). Posteriormente o caso foi narrado no livro "A tragédia de Eloá: uma sucessão de erros", do jornalista Márcio Campos. Na obra, o jornalista mineiro conta os primórdios dessa história - o namoro entre uma menina de 12 anos com um rapaz de 19; o ciúme doentio do namorado; as constantes brigas e términos; as ameaças e a violência.

Durante o julgamento, Ana Lúcia Assad, advogada de Lindenberg, usou como estratégia de defesa o argumento de que a imprensa e a polícia tiveram papel decisivo no desfecho do caso. A polícia pela demora em agir, por tratar o ex-namorado de Eloá como um Romeu arrependido, e não como um rapaz violento capaz de matar, e também por ter permitido que Nayara, amiga da vítima que estava na casa no momento do sequestro e foi solta durante as negociações, voltasse para o cárcere.

Já a mídia, segundo a advogada, contribuiu para que o caso terminasse em tragédia pela forma como repercutiu o fato, entrevistando o rapaz durante o sequestro, dando a visibilidade que ele desejava em mídia nacional. A forma como os veículos de comunicação agiram, não apenas reportando os fatos, mas também agindo de forma a participar destes, pode ter sido decisiva para que o sequestro se transformasse em homicídio. Ao menos, foi isso que sustentou a advogada.

Mas mesmo com toda a argumentação, Lindenberg foi condenado. A pena é de 98 anos e 10 meses. Considerando o fato de ele ser réu primário, acredito que ficará preso em regime fechado por pouco mais de 39 anos (2/5 da pena). Isto é, se tiver bom comportamento. Sua advogada foi considerada por muitos como a grande vilã do julgamento, e foi hostilizada durante os 4 dias de tribunal. Mas não creio que ela possa ser culpada.

Ana Lúcia Assad ao lado de Lindenberg
Pela Constituição, todo mundo tem direito a defesa - mesmo sequestradores, assassinos e pedófilos (embora eu acredite que, se a pena de morte deve ser aplicada em alguém, esse alguém é o pedófilo). O fato é que a advogada estava cumprindo seu papel, tentando defender o rapaz e minimizar sua culpa. Talvez por acreditar que todo homem merece um julgamento digno, com uma defesa justa. Talvez por crer que essa era a oportunidade perfeita para mostrar, em rede nacional, a eficácia do seu trabalho enquanto advogada. Ou talvez - e eu acredito que esse seja o real motivo - porque ela realmente acreditava que o desfecho trágico do sequestro foi fortemente influenciado pela ação tardia da polícia e pelos exageros da imprensa.

Quem acompanhou o caso em 2008 deve lembrar que, por diversas vezes, Lindenberg esteve na mira da polícia, mas ninguém tinha autorização para atirar. Não sou nenhum especialista em segurança, mas posso especular. A sensação que ficava ao ligar a televisão era de que algo daria errado. A polícia negociava, a imprensa criticava a demora da polícia em agir, o público acompanhava o caso torcendo por um final feliz.

Sabe-se que alguns jornalistas fizeram contato com o rapaz enquanto ele mantinha a ex-namorada em cativeiro. Mas, como saber se esses contatos influenciaram, direta ou indiretamente, a mentalidade perturbada de Lindenberg? Questiono-me qual será o limite para o envolvimento dos jornalistas em um caso como este. Até onde se deve ir em uma pauta? Até onde se PODE ir sem influenciar nos fatos?

Eu, particularmente, não acredito que o caso teria outro desfecho se a postura da imprensa fosse diferente. Mas os anos de estudo me ensinaram que as respostas para essas questões não está na subjetividade. Não é o tipo de coisa que se aprende numa faculdade. É claro que somos preparados para diversas situações durante a academia. Mas ensinamentos desse tipo se ganha, sobretudo, com a vivência nas redações.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

A Revista Época e a função social do jornalismo

Mais do que uma profissão que visa o lucro, devemos entender o jornalismo como uma categoria que possui um papel definido na sociedade. É claro que o conteúdo é um produto, comercializado, tratado e vendido. Mas isso não significa que deva ser baseado em mentiras, especulações e achismos. Pelo contrário. A boa reputação (e aceitação) de um veículo depende da qualidade (e veracidade) do conteúdo que se publica.

Nesse contexto, podemos pensar no papel do jornalismo na sociedade através de situações cotidianas, como as reclamações de ruas esburacadas, de falta de água, de constantes quedas de luz. Mas também podemos visualizar esta função social em situações mais graves, cujo desenvolvimento pode afetar um país inteiro.

Um exemplo típico e incontestável é o caso Watergate. O escândalo político que abalou os Estados Unidos na década de 70 é o mais claro exemplo do poder que o jornalismo possui de denunciar à sociedade aquilo que está errado. Não é à toa que criou-se o hábito de chamar o jornalismo de o 4º poder - o responsável por fiscalizar os três poderes já constitucionalmente estabelecidos.

E é com esse ideia de denúncia e fiscalização que vejo a reportagem "O homem que processou o Brasil", publicada na revista Época. O texto, escrito por Mariana Sanches, poderia muito bem ser um roteiro de cinema. Mas é vida real. A história de Wolf Gruenberg é tão absurda que seria difícil de acreditar mesmo que fosse ficção.

Segundo Gruenberg, em 1977 sua empresa recebeu um calote de uma empresa de capital misto. O Banco do Brasil seria o responsável pela empresa em questão e o encarregado de pagar a Wolf o valor de pouco mais de US$ 1 milhão, conforme estipulado em justiça. O empresário afirma ter recebido apenas 10% deste valor.

Outro processo se arrastou na justiça por mais de 15 anos, até que a empresa devedora foi absorvida pela União. Nesta época, com juros e indenização pelos prejuízos causados, a dívida estava entre 40 e 50 milhões de dólares.

Em 1999, 22 anos após a início da briga jurídica, a União acusa Wolf de cobrança indevida por uma dívida, segundo ela, já quitada. Mas em 2004, 27 anos após a entrada na justiça, o juiz responsável pelo caso julgou que a União devia mais de 1 bilhão de reais a Gruenberg.

A União apelou da decisão, alegando que o valor da dívida não passava de R$ 48 milhões. No mesmo período o Ministério Público e a Polícia Federal começaram uma investigação com suspeita de que Wolf estivesse tentando ludibriar a justiça brasileira.

Na manhã do dia 11 de julho de 2008, policiais armados invadiram a casa de Wolf, em Porto Alegre, e levaram ele e a esposa sob custódia. Fora acusado de chefiar uma quadrilha que arquitetou um esquema bilionário de fraudes contra a União. Na época, Gruenberg estava em tratamento contra um câncer, e afirma que passou 150 dias (preso) sem poder conclui-lo.

Mas algo pior ainda ocorreu com sua esposa. Poucos dias antes ela havia passado por uma delicada cirurgia para redução das mamas. Com a prisão, foi colocada em uma cela sem cuidados médicos. Contraiu uma infecção neste período que deixou seus seios purulentos. Foi levada ao hospital Moinhos de Vento e ficou na UTI, com os pés algemados.

Gruenberg agora tenta provar sua inocência, briga receber o que a União lhe deve e para ser indenizado pela forma desumana como diz ter sido tratado na prisão. Mas agora ele que ir além. Mais do que dinheiro, ele busca justiça. Quer levar seu caso às Nações Unidas e fazer com que seja exemplo dos abusos cometidos pelo Estado.

O capítulo final dessa história ainda está sendo escrito. Mas confesso que fiquei atônito ao ler algo tão irreal e surpreendente. Mais do que uma boa história, o exemplo que a Época nos traz é de que é dever do jornalista denunciar esse tipo de situação. É função do jornalista alertar a sociedade para práticas como esta.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

A infografia multimídia e os recursos da rede

Não posso negar que sou fã incondicional da equipe de infografia do Estadão. Convenhamos, eles sabem como tornar uma informação mais simples e atraente usando o infográfico e a interatividade como recursos. A paixão começou quando fui apresentado a este infográfico, eleito o melhor infográfico do mundo em 2010.


Há ainda outros excelentes infográficos que posso destacar. Um dos meus preferidos é este, que faz uma linha do tempo com as características de todos os presidentes brasileiros, desde Marechal Deodoro até Dilma Rousseff. Um infográfico essencial para quem quer estudar um pouco mais sobre a história do Brasil.

Ao longo do ano passado, procurei em alguns outros portais, mas em nenhum consegui ver um trabalho tão consistente e complexo quanto o que é desenvolvido pela equipe do Estadão. Entretanto, nos últimos meses, com a correria do fim do semestre na faculdade e a preguiça adjacente às férias, parei de acompanhar o trabalho tão de perto. Confesso que fiquei surpreso, esta semana, ao ver dois infográficos sobre o carnaval do Rio de Janeiro.

O primeiro deles é do portal Ig, uma iniciativa muito bacana que oferece ao internauta a oportunidade de comandar a bateria de uma escola de samba (da escola Grande Rio). Neste caso, a informação não foi o foco, mas sim o entretenimento e a interatividade. É claro que é possível também acompanhar os bastidores da produção do infográfico e ver a entrevista com o mestre de bateria, mas, claramente, o objetivo do infográfico é o entretenimento.

o segundo foi produzido pelo Estadão. Apresenta uma nuvem com os nomes de todas as escolas da categoria principal. Ao clicar, abre-se uma janela com a letra do samba-enredo da escola, um áudio de aproximadamente 30", além de uma foto da Rainha de Bateria e algumas poucas informações sobre a escola.

Confesso que fiquei um pouco decepcionado. Não por considerar o trabalho ruim, mas por acreditar que, tratando-se de uma celebração especial, acredito que caberia um infográfico melhor produzido.Além disso, o infográfico do Estadão não tem o objetivo de entreter, mas também não possui a capacidade e o conteúdo necessário para informar. Por fim, não é um trabalho com o mesmo nível dos demais que já vi nas mãos da equipe.


Mas, deixando de lado minha opinião sobre o nível de desenvolvimento de ambos, me incomoda saber que infográficos como estes são exceções. Por mais que eu acredite que ambos os trabalhos poderiam trazer mais informações, o que realmente me intriga e preocupa, considerando que já estamos em 2012 e que a nova geração de jornalistas tem um leque incrível de opções de softwares (sejam eles pagos ou gratuitos), é a escassez de infográficos interativos.

Penso na infinidade de recursos desperdiçados ao ver um infográfico estático na internet. A verdade é que boa parte dos comunicadores ainda não se adaptou às novas possibilidades. Mas, se alguém pretende conquistar essa nova geração de leitores - uma geração que nasceu e cresceu multimídia e que vive mais tempo conectada do que no mundo off -, a postura precisa mudar.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

De garganta limpa, um passado sujo

O livro Corações Sujos não está entre os mais populares de Fernando Morais. Entretanto, a história é digna de prêmio. Tanto é que a obra, lançada em 2000, foi vencedora do prêmio Jabuti de 2001. Em 2010, a história foi adaptada para o cinema. E em 2011, em uma aula de jornalismo de revista, recebi a indicação da leitura. Corações Sujos é um daqueles livros que te suga, te destrói e reconstrói ao longo das páginas. É um história que exige investigação, dedicação e força de vontade para se contar. Afinal, não é qualquer repórter que se dedica a cinco anos de pesquisas, entrevistas e estudo de documentos.

Mas, convenhamos, Morais não pode ser chamado de "qualquer um". Aos 65 anos, ele carrega consigo o peso de ser um dos jornalistas mais importantes do país. Mineiro, recebeu três vezes o Prêmio Esso e quatro vezes o Prêmio Abril de Jornalismo – as duas premiações mais importantes do país. Trabalhou nas redações da revista Veja, do Jornal Folha de S. Paulo e da TV Cultura. Mas foi por meio de seus livros que passou a ser reconhecido no mundo inteiro – suas principais obras foram publicadas em 18 países.

Morais é autor de algumas das biografias mais relevantes do Brasil. Em Olga, remonta a história de Luis Carlos Prestes e sua marcha pelo país, a luta contra a ditadura e o sofrimento da personagem que dá nome ao livro nos campos de concentração nazistas. Já em Chatô, o rei do Brasil, Fernando Morais viaja no tempo para contar a trajetória de Assis Chateaubriand, o magnata brasileiro que construiu um dos maiores impérios comunicacionais do mundo. Em comum, suas obras têm a característica de reconstruir o passado para explicar o presente.

Em Corações Sujos não é diferente. A obra conta a história da comunidade japonesa – mais de 200 mil imigrantes daquele país – no Brasil durante a Segunda Guerra Mundial e após a derrota dos “súditos do Eixo”. Com detalhes que esclarecem desde o motivo da vinda dos imigrantes até a dificuldade de muitos descendentes de aceitarem a derrota do Japão na guerra, Morais nos apresenta a Shindo Renmei – uma organização secreta japonesa encabeçada pelo Coronel Kikawa com o objetivo de limpar a colônia dos traidores.

Assim, após a Segunda Guerra, a comunidade japonesa (concentrada principalmente em São Paulo) divide-se em duas vertentes: os “vitoristas”, que não acreditam na derrota do Japão e que, posteriormente, começam a forjar notícias de que o Japão invadiu os Estados Unidos, derrubou seu presidente, destruiu sua frota e dizimou seu exército; e os “derrotistas”, japoneses com nível cultural mais elevado e que acreditaram na derrota de sua pátria sem contestação. Eles passaram a ser chamados de “Corações Sujos”.

Considerados traidores, os “derrotistas” são constantemente ameaçados pelos seguidores da Shindo Renmei. A Liga do Caminho dos Súditos (tradução de Shindo Renmei) contava, de acordo com seu idealizador, Coronel Junji Kikawa, com mais de 120 mil associados. Os membros, em geral colonos, verdureiros, tintureiros, sapateiros e vendedores ambulantes, pagavam mensalidades que variavam de dois a 10 cruzeiros. Ao fim das investigações, a polícia concluiu que a seita movimentava uma média de 700 mil cruzeiros por mês – cerca de 500 mil dólares hoje.

Esse dinheiro era utilizado para a manutenção de boletins, panfletos e outras publicações que deveriam espalhar a ideia de que o Japão tinha vencido a guerra. Cada agente da Shindo Renmei ainda levava no bolso um panfleto que explicava como criar uma sucursal da seita, como fazer a comunicação de forma segura e o que deveria ser feito para sabotar o inimigo. Mas era o capítulo final que enchia de orgulho a alma dos patriotas: a promessa de que todos os imigrantes seriam repatriados e poderiam voltar à “Grande Ásia Oriental” - uma superpotência econômica em que o Japão se transformaria após vencer a guerra. Por meses os fanáticos esperaram pelo navio que viria buscá-los. É lógico, em vão.

A obra de Morais nos faz refletir não apenas sobre o descaso com que os japoneses foram tratados no Brasil durante a guerra – principalmente com as duras restrições impostas pelo governo Vargas e potencializadas após a entrada do Brasil na guerra -, mas também sobre a força do espírito nipônico frente às informações de que o Japão perdera a batalha.

Se os colonos foram proibidos do acesso ao rádio, aos jornais e às plataformas de comunicação em língua japonesa, não terá sido isso um dos grandes motes para que a informação fosse deturpada e uma comunidade inteira conduzida a acreditar em uma mentira? Será que, se os japoneses tivessem o direito ao acesso da informação tal qual teriam caso estivessem em sua terra natal, as ações da Shindo Renmei poderiam nunca terem ocorrido? São perguntas sem resposta. Mas, é importante lembrar, como foi dito a certa altura da obra: somente um japonês poderia ser capaz de dizer a outros japoneses que aquilo em que eles acreditam não passava de uma mentira.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Uma revista masculina diferente

Uma das melhores coisas que tenho lido ultimamente é a Revista Alfa. A publicação mensal do Grupo Abril nasceu no fim de 2010, possui um público bastante específico e uma equipe que concentra-se na produção de uma revista impressa e de uma versão da mesma para iPad - levando em conta os recursos disponíveis no tablet.

Com o slogan "Inteligência, boa vida, elegância e atitude", Alfa dá dicas do público ao qual direciona-se - em geral, homens com certa estabilidade financeira e profissional, com um padrão cultural elevado e bem resolvidos em todos os aspectos possíveis.

Suas capas lembram, até certo ponto, as da mítica Revista Realidade. São fotos de grandes personalidades que resumem o tema central de cada edição.Foi assim com Galvão Bueno (em uma alusão à piada que tomou conta do mundo), Steve Jobs (as vésperas da chegada do iPhone 4) e com Ronaldo (sobre a aposentadoria e os futuro com a empresa de marketing).

Em geral, as pautas são bem elaboradas e diferenciadas. Um exemplo é uma das chamadas de capa da 1ª edição, em setembro de 2010: "Por que Marcelo Tas é o nosso candidato a presidente". Em outra capa, desta vez na edição de novembro de 2010, Alfa traz a seguinte chamada: "Exclusivo: 'Peço desculpas' - Bernardinho e o jogo em que o Brasil entrou para perder". Por tudo isso, foi eleita a melhor revista masculina do Brasil em 2011, mesmo sem utilizar fotos de mulheres nuas.

Mas a revista também tem alguns pontos negativos. O primeiro, ao meu ver, refere-se ao conteúdo e a linguagem do impresso e do digital. Não posso afirmar que todo, mas ao menos boa parte do conteúdo é o mesmo nas duas plataformas, apenas agregados com recursos multimidiáticos. É claro que isso é o mais lógico a se fazer. Mas ainda considero que seria interessante buscar um diferencial para o produto no iPad para além da plataforma em si.

Quer dizer, se você lê uma revista no tablet, o mínimo que se espera é uma galeria de fotos, alguns vídeos, alguns links, talvez algum infográfico interativo. Mas falta um diferencial, e isso não é apenas na Alfa, mas em todas as revistas brasileiras para iPad que conheço. Por que não produzir então uma reportagem especial diferente para o tablet? Talvez uma pauta exclusiva para a versão digital, com uma capa extra que chame exclusivamente para essa reportagem? Sei lá, é só uma ideia.

O segundo ponto negativo é o preço. É claro que, considerando-se o público alvo, 10 reais para a versão impressa é um preço bastante justo. Mas 7 dólares pela versão para iPad? Esse é um hábito ainda bastante constante e irritante nas revistas brasileiras para tablet - colocar um preço maior do que o da versão impressa.

Estou estudando revistas em tablets e posso afirmar, com bastante tranquilidade, que mesmo com os gastos com servidor, desenvolvimento, manutenção do sistema e outros que surgem com o veículo em meio digital, não há maneira de uma revista para iPad demandar mais gasto do que uma impressa. É claro que o público ainda é bastante restrito, mas revistas que praticam preços desta natureza não podem queixar-se por terem poucos leitores na versão para tablets.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Santa Cruz em dia de Hollywood

Parecia Hollywood, mas era Santa Cruz do Sul. O município anoiteceu diferente neste dia 6 de fevereiro. Em apenas um dia a cidade tranquila transformou-se em cenário de filme de ação. Começou ainda pela manhã, quando agentes da Susepe escoltavam um criminoso - condenado 5 vezes e com penas que somam mais de 40 anos - à Unimed para consulta com um dentista.

Quatro homens armados surpreenderam os dois agentes que faziam o trajeto com o criminoso. Em uma ação rápida, resgataram o presidiário e fugiram em direção ao bairro Higienópolis. No trajeto de fuga, ainda fizeram uma dona de casa refém, trancando-a no banheiro de casa e fugindo em um táxi. Dois suspeitos já foram detidos, mas o criminoso resgatado continua foragido.

Já no início da tarde, um homem entrou portando um revólver calibre 38 na lotérica do Shopping Santa Cruz. Entregou uma mochila às atendentes e fez com que enchessem de dinheiro. Um comparsa o esperava do lado de fora. Fugiram de moto e ainda não foram localizados. Uma câmera de segurança do shopping gravou a ação e uma foto do assaltante já está disponível aqui.

No fim da tarde, pouco antes das 17h, outro assalto na cidade. Dois homens armados entraram em um supermercado próximo à rodoviária da cidade, anunciaram a ação e levaram dinheiro dos caixas e alguns pertences de clientes. Ambos fugiram de moto. A polícia trabalhava, até o momento, com a suspeita de que poderiam ser os mesmos criminosos que assaltaram o Shopping no início da tarde.

O dia foi um prato cheio para a imprensa local. Minha dúvida é: o que será priorizado? O que será capa? Até que ponto a apuração jornalística do impresso (e talvez da TV) vai avançar em relação a que foi feita pelo rádio e pelo portal durante o dia de hoje? Me constrange a ideia de que, de repente, não teremos novidade alguma nos veículos da cidade amanhã.

Esse é o tipo de reportagem que não se faz com a bunda colada na cadeira. Espero que os colegas tenham lembrado disso enquanto faziam a apuração. O que espero são notícias para além do lugar comum. Se é pra contar aquilo que já relatei no início do post, desculpem-me, mas algo está errado. O rádio e o online já deram conta, ao longo do dia, de narrar os fatos aos cidadãos. É dever do impresso (não apenas do impresso, mas principalmente dele) trazer o "algo a mais". Mas só pela manhã saberemos.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

O Jornal da Globo e a coluna "Conecte"

Para quem está sempre conectado, é difícil encontrar uma matéria sobre tecnologia veiculada por uma emissora como a Rede Globo que não pareça defasada e repetitiva. Em geral, obtemos aquela informação através de mídias alternativas, com links nas redes sociais que nos levam a blogs especializados (muitos deles, bastante confiáveis). Mas em alguns casos, os veículos tradicionais ainda conseguem nos surpreender e chamar nossa atenção.

Um exemplo disso ocorreu comigo no dia 10 de janeiro, assistindo ao Jornal da Globo, último programa jornalístico da emissora do dia. O tema da edição semanal da coluna Conecte era "tecnologia 4G".



Confesso que, ao ver as chamadas, fiquei um pouco incrédulo. Mas ao assistir à reportagem, tive uma grata surpresa. Definitivamente a Rede Globo não apenas é a maior emissora do país como também possui alguns dos melhores jornalistas do Brasil.

Se no telejornalismo "imagem é tudo", então a passagem de Renata Ribeiro, que dá início à reportagem, não poderia ser em um local melhor: o Museu do Telefone de São Paulo. Com um texto que brinca com a ideia de que um celular simples já é coisa de museu, ela prende o espectador e resume, em poucos segundos, a ideia que a reportagem quer transmitir.

É claro que a qualidade dos repórteres não é o único fato louvável nessa reportagem. Afinal, para se fazer uma matéria recheada de infográficos, dividida por três renomados repórteres (Renata Ribeiro, Jorge Pontual e Roberto Kovalick) em 3 países diferentes (Brasil, Estados Unidos e Japão) e com um leque de outros profissionais como editores de vídeo, produtores, câmeras, todos sabemos que é preciso ter estrutura.

Neste caso, não apenas estrutura financeira, mas também estrutura editorial. Afinal, como podemos ver nos créditos da passagem de Renata Ribeiro no Morumbi (gravada no dia 21 de setembro de 2011), a pauta estava em produção há, no mínimo, três meses. E convenhamos que, investir 3 meses em uma pauta, não é um luxo do qual todos os veículos podem desfrutar.

Enfim, meus amigos. O bom jornalismo (aquele jornalismo em profundidade do qual ouvimos tanto falar na faculdade, com tempo dedicado a estudar a pauta, a produzir infográficos, a pensar em como tornar a reportagem simples sem ser simplória) ainda existe. É claro que é mais fácil fazer algo com qualidade quando os editores aceitam investir. Mas, não nos deixemos abater: mesmo nós, com recursos limitados, podemos fazer boas reportagens. A questão é saber adaptar o olhar trabalhar com os recursos - mesmo que escassos - disponíveis. Em outro post, prometo trazer alguns exemplos do que é possível fazer mesmo sem recursos.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Viciados em adjetivos

Quando entrei para a faculdade, era viciado em adjetivos. Não importava muito escrever sobre o fato em si, desde que pudesse falar sobre "os pássaros que gorjeavam no horizonte daquela linda manhã primaveril, enquanto o alto e imponente som de uma boiada fazia-se ouvir ao longe". Mas com os anos de estudo, aprendemos que nossa função não é fazer literatura - ao menos não em primeiro plano. Concordo que é importante contar uma história de forma interessante, mas ainda mais importante é deixar claro o que se está contando.

É o que podemos ver em livros como "Honra Teu Pai", do repórter Gay Talese (considerado por muitos como o maior repórter do século XX). A literatura é usada para dar sabor ao texto, mas a história contada vem sempre em primeiro plano. O mesmo pode ser visto na obra "Corações Sujos", de Fernando Morais. Em ambos é possível perceber o intenso estudo dos repórteres, a busca por documentos, entrevistas, fontes oficiais e não-oficiais. Não há especulação; não há bajulação; existe apenas um intenso trabalho de reportagem que faz uso de recursos literários para contar histórias verídicas de forma atraente.

Em última instância, jornalismo é um braço da literatura. É a vertente que conta histórias reais, que não inventa fatos, mas os retrata levando em consideração toda a bagagem cultural do repórter - afinal, imparcialidade é uma utopia, e o repórter sempre se posiciona em uma matéria, mesmo que seja ao definir a angulação de sua reportagem. Mas mesmo posicionando-se, é função do jornalista  não ser tendencioso.

O impasse a que chegamos soa contraditório, mas não é. Ao definir uma angulação e minimamente posicionar-se sobre o conteúdo da reportagem, o repórter adquire a obrigação de apresentar todas as facetas de uma história para que o leitor possa tomar suas devidas conclusões. O jornalista não pode, por exemplo, chamar de "assassino" o suspeito de um crime que ainda não foi julgado; não pode chamar de "estuprador" um personagem de um caso que ocorreu dentro de um reality show sem antes ser comprovada a culpa do rapaz em questão. Da mesma forma, não é dever do repórter ser advogado de um político acusado de corrupção ou de bajular os anunciantes do veículo.

Mas é intrigante como o vício em adjetivos, algo que deveria ser curado nos primeiros semestres da universidade, tornou-se um dos males do jornalismo contemporâneo. Mais do que a angulação, o que vemos diariamente em grandes veículos são artigos disfarçados em formato de matérias. São textos que especulam, julgam e condenam, sem saber ao certo o que de fato ocorreu e sem dar ao leitor a oportunidade de conhecer todos os lados da notícia. São comunicadores que fazem política em cada linha escrita, que defendem seus interesses (muitas vezes escusos e de forma velada) a cada parágrafo.

Um jornalista pode e deve mostrar seu posicionamento em determinadas situações, mas existem formas bastante específicas para se fazer isso. Textos opinativos, em geral, são assinados e identificados, justamente para que não se faça confusão entre o que é informação, especulação e opinião. É um direito do repórter manifestar-se, mas é seu dever não manchar a profissão defendendo interesses próprios.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Repórteres de ar-condicionado

Algo que me intriga e entristece é ver que muitos de meus futuros colegas de profissão tornaram-se preguiçosos e omissos com o passar do tempo. São profissionais que saíram da faculdade com o sonho de mudar o mundo, de fazer um jornalismo diferente, de buscar um olhar diferenciado em cada pauta, mas que deixaram-se engessar pelos modelos ultrapassados ainda praticados nas redações do século 21.

Sempre acreditei que a mudança deve partir de cima, de quem encabeça um órgão de comunicação, e não de um repórter utópico. Direção e editores devem, juntos, estimular a equipe de reportagem a trabalhar em busca de uma informação fundamentada na apuração de todas as nuances de uma história. O jornalismo não deve e não pode se ater a publicações de releases e pautas mal-apuradas via telefone. Mas, infelizmente, é isso que assola grande parte dos veículos de comunicação do Rio Grande do Sul.

Em geral, a responsabilidade de produzir duas ou três matérias por dia faz com que o repórter deixe escapar princípios básicos de apuração. Por necessidade - afinal, um veículo tem que gerar renda para cobrir seus custos e pagar seus funcionários -, a preocupação em fechar a edição do dia seguinte mostra-se maior do que a com  a qualidade do que será veiculado. O pensamento nos casos mais extremos é: "se errarmos hoje, corrigimos amanhã e seguramos a atenção dos leitores por mais um dia".

Mas, até quando nossos colegas serão submetidos a esse modelo retrógrado de jornalismo, que oferece uma informação superficial e que não leva em conta a necessidade de notícias bem-apuradas e com profundidade? Até quando os interesses pelo lucro dos grandes veículos irá engessar o talento de colegas competentes? Até quando seremos agredidos com pseudo-reportagens cobertas via telefone no conforto do ar-condicionado, enquanto a verdadeira notícia está lá fora, no calor, esperando para ser descoberta por um repórter que se disponha a encontrá-la?Podem defender que "é isso que o povo quer ler". Mas se não lhes dão opções, como eles poderiam clamar por algo diferente?

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Orelhas também podem ser polêmicas

Há cerca de nove ou 10 anos tornou-se moda entre os meninos pré-adolescentes o uso de brincos. Ao menos em Santa Catarina, estado no qual residia na época. Eu, então com 11 ou 12 anos, um garotinho gorducho e medroso, fiquei com medo de aderir à moda. De qualquer forma, a coisa evoluiu. De pequenas e discretas pedras a garotada partiu para o uso de argolas - cada dia mais ousadas.

Com o tempo, o ornamento, antes pendurado, começou a profanar as leis de Newton e dividir o mesmo lugar no espaço que a carne de muitas dessas orelhas. São os chamados alargadores, adornos capazes de comprovar o quão fantástica é a capacidade do tecido humano de expandir-se e adaptar-se às mais excêntricas invencões.

Mas quando minha vã filosofia ousou sugerir que não havia nada mais de bizarro a ser inventado para ocupar o lugar de um brinco, eis que vejo uma adaptação: um parafuso atravessado na orelha. Sim, um parafuso! Confesso que foi a primeira vez que vi a surreal adaptação, algo que minha imaginação limitada jamais havia me deixado prever. Só fico pensando: imagina se essa moda pega.

Daqui a pouco teremos lojas de bijuterias com prateleiras inteiras dedicadas a materiais de construção. Imaginem a namorada comprando um pacote de parafusos de presente ao namorado moderninho. Ou o rapaz presenteando a noiva com um lindo conjunto de pregos (de três tamanhos diferentes, porque ela tem três furos em cada orelha). Não seria esse o ponto máximo a que se pode elevar o termo "reciclagem"?

quinta-feira, 28 de julho de 2011

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Todos amam futebol

Foi hoje, no fim da tarde, enquanto aguardava o ônibus para voltar pra casa. De pé na parada, ao lado de duas senhoras com seus 60 ou 70 e poucos anos, ouço a seguinte discussão:

- Não, o Avenida tinha que ganhar pra se classificar. Mas tá só empatando.
- Tá, mas se ele ganha, se classifica?
- Não. Depende do Brasil de Farroupilha e do tal de Juventus lá de Santa Rosa. O Brasil tem que perder, mas esse Juventus não ganhou nenhuma até agora. Tu acha que ganharia agora?
- Não ganha. Mas e esse que tá jogando com o Avenida, como que tá?
- Ah, esse tá classificado, ninguém mais busca. E eles tão empatando. Só por milagre pro Avenida ganhar.
- Pobre Avenida.

Pode ser branco, negro, pardo; baixinho, gordinho ou alto e magro; homem, mulher, homo, bi, trans ou mesmo hermafrodita; criança, adolescente, adulto ou idoso; quem nunca se pegou assistindo um jogo na TV, mesmo sem querer, e torcendo inconscientemente para um dos lados? No discurso, futebol é uma chatice. No dia a dia, o esporte mais popular do país é assunto em jornais, revistas, bares, ou mesmo numa parada de ônibus. Perdom-me a generalização, mas de uma forma ou de outra, todos amam futebol.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Unicom 7 Pecados

Unicom Pronto PDF1                                                                                                   

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Por que 16 de fevereiro é o dia do repórter?

Quem é da área da comunicação deve ter ao menos lido algo sobre hoje, 16 de fevereiro, ser o dia do repórter. Dia em homenagem aquele cara que batalha todos os dias para conseguir uma boa reportagem, apurar a informação e levá-la ao público da forma mais clara possível. O cara que espera por horas até que uma fonte possa finalmente dar uma sonora de 2 minutos. Uma espera cansativa mas necessária.

É o cara que, a cada olhar, enxerga algo diferente. Encontra pautas fugindo (ou não) da obviedade e do lugar comum. Repórter é aquele que ganha mal, trabalha muito, recebe ligações no meio da noite com uma denúncia que pode ser capa no fim de semana. Vive estressado mas de bem com a vida. Dorme pouco, mas tem pique para correr o dia inteiro atrás da notícia. E o mais importante: é apaixonado pelo que faz. Não se imagina com a bunda sentada em uma cadeira fazendo assessoria de imprensa, ou, ainda pior, trabalhando em outra área sem relação alguma com comunicação.

Mas afinal, por que 16 de fevereiro é o dia do repórter? Essa é uma pergunta que nem o Google conseguiu responder. Então, resolvi formular algumas teorias.

Teoria 1: "Em 1773 as distinções entre cristãos velhos e cristãos novos são abolidas em Portugal. É igualmente decretada a destruição dos registros cadastrais dos judeus." Todos sabemos que os repórteres são muito religiosos, principalmente quando cai a pauta (eles dizem "Ai Meu Deus!"). Há uma possível relação.

Teoria 2: "Em 1848 nasceu o escritor e jornalista francês Octave Mirbeau. Ele faleceu em 1917, também no dia 16 de fevereiro." Pode ser uma homenagem por sua contribuição enquanto jornalista (que contribuição?).

Teoria 3: "Em 1958 faleceu Benedito Lacerda, flautista, saxofonista, compositor e regente brasileiro." Tá,  não tem ligação alguma com reportagem, mas o cara é (foi) saxofonista, merece meu respeito.

Teoria 4: "Em 1896 foi a primeira publicação da tira Yellow Kid no New York Journal, pioneiro das história em quadrinhos, obra de Richard Fenton Outcault." Pelo menos essa teoria é relacionada a jornal.

Teoria 5: "Em 1933 é fundado o Madureira Atlético Clube, futuro Madureira Esporte Clube." Teoria muito relevante... #NOT.

Se alguém tiver outra teoria ou souber a verdadeira resposta, deixe seu comentário. No mais, só resta parabenizar a todos os profissionais que doam suas vidas para levar informação de qualidade, todos os dias, às casas de milhões de brasileiros. Vocês são os heróis da democracia.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Manual do Estagiário - Capítulo IV

O Estagiário e as Relações Políticas

Se estagiário longe do poder já faz merda, imagina quem trabalha diariamente com os governantes, seja na cidade, estado ou mesmo em nível nacional. A verdade é que o pobre estagiário tem o dom de atrair problemas. É verdade que ele tenta fazer tudo certo, da melhor forma possível. Aquela busca incansável por um elogiozinho que seja. Mas, como já ficou bastante claro nos capítulos anteriores, seu chefe não é muito fã de elogios. A única forma de receber um elogio é se você for uma estagiária gostosa. Nesse caso, com certeza, seu chefe a elogiará. E muito. Dará presentes. Oferecerá caronas. Mas depois que cansar de te comer, vai te deixar de lado, como fez com todas as outras.

Mas a questão agora não é quem seu chefe come ou deixa de comer. O fato é que você, estagiário, em sua ânsia de mostrar-se competente, acaba pecando nos detalhes mais sutis. Já falamos aqui, por exemplo, sobre a importância de não falar besteiras no twitter corporativo. Mas teve um estagiário do STF que esqueceu dessa regra, se descuidou, e fez merda. E ele mexeu logo com o Sarney. Já não bastasse o osso, o senador agora não vai largar o pé do pobre estagiário também.

E quem não se lembra do caso do MEC, quando sua assessoria de comunicação ameaçou, via twitter, os alunos que estavam reclamando da incompetência do sistema na realização do ENEM de 2010? Bem coisa de estagiário mesmo. Pelo que sei, estão procurando novos estagiários até hoje. E não fazer piadas em redes sociais é diferencial.

Mas, quando o assunto é política, estagiário não faz burrada apenas pelo twitter. Bem pelo contrário. Tem cidades por aí em que o governo municipal, por exemplo, tenta inibir os jornais locais. Ferem o direito constitucional do acesso à informação. E o que é mais triste é que essa atitude, logicamente, não parte dos estagiários. Ela vem de cima. Você, estagiário, é apenas o capacho que deve obedecer as ordens que vem de cima. Ou isso, ou manda o chefe pra longe e procura outro emprego que pague a mesma merreca que recebe na prefeitura.

É claro que esse foi apenas um exemplo tolo. Afinal, não existem mais cidades no Brasil em que o coronelismo reina. Aquela história de prefeita esposa de ex-prefeito, agora deputado, que elege o filho vereador e depois deputado também e blá blá blá, não passa de besteira. Vivemos em uma democracia e elegemos nossos governantes de forma sensata. Está certo que, vez ou outra, surge um estagiário da prefeitura em comunidades carentes doando roupas, alimentação e medicamentos."E vê se não faz merda, hein? Não deixa ninguém da oposição te ver por lá", são as palavras que martelam na cabeça do estagiário enquanto ele distribui os "agrados" ao povo. A sirene soa. "Mão pra cima, rapá, mão pra cima." Alguém da oposição viu o estagiário e denunciou pra polícia. Afinal, é véspera de eleição municipal. Ainda assim, o atual governo vence. O estagiário tem mérito nisso, mas fica esquecido na cadeia. E que não espere um elogio. Esse "acaso" faz parte de seu trabalho, e ele não fez mais do que sua obrigação.


Para ler o capítulo anterior, clique aqui.
Para ler o primeiro post da série clique neste link.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Brilha uma nova estrela no céu

O @TODOS_POR_UM foi a fábula mais triste já contada. A história de amor e devoção mais linda jamais escrita. A vida não imita a arte. Pena. Se imitasse, o final dessa história seria diferente. E todos torcemos por isso. Foram meses de torcida, de mobilização, de solidariedade. Semana após semana de procura pela "Medula escondida".

Para quem não conhece a história, @TODOS_POR_UM é o perfil no twitter criado por Thiago Eidt, numa campanha para encontrar uma medula compatível para a esposa, Mariana Cuervo. Em setembro, Thiago iniciou uma mobilização nacional na tentativa de ajudar Mariana. Conseguiu o apoio dos veículos de comunicação locais e regionais. Em outubro, conseguiu um espaço na Rede Globo, no programa Mais Você, no qual Mariana e Thiago conversaram em rede nacional com Ana Maria Braga.

A campanha em busca de um doador para "Mari" mobilizou mais de 15 mil pessoas em todo o estado e até mesmo fora do país. No perfil compartilhado pelo casal no twitter, Mari e Thiago relatavam a luta diária contra a Leucemia. Uma visita à pizzaria ou algumas horas com boa disposição eram motivo de celebração do casal na rede.

Nunca na história uma declaração de amor foi tão marcante, forte e intensa quanto a do casal. Nunca antes a paixão de um homem por sua esposa havia sensibilizado tantos desconhecidos. Cada mensagem de carinho, cada nova declaração, cada mensagem de esperança publicada por Thiago para Mariana, tocava o coração de seus seguidores como se fossem velhos conhecidos de casal, mesmo sem nunca terem os visto.

Hoje pela manhã, Mari partiu. Em seu twitter, ontem a noite, Thiago tentou amenizar a situação (uma tentativa de amenizar a dor). Disse ele: "Mais uma ondinha..parece que Deus tá fazendo uma contra-proposta pra Mari...(desculpe a maneira de falar, mas isso torna menos dura a luta)". Hoje pela manhã, por volta das 10 horas, ele twittou: "A reunião chegou ao fim. A proposta foi muito boa e a Mari decidiu que era hora de ir. Virou anjinho às 7hs da manhã e foi correndo pro céu. Agradecemos a todos pelas orações e a Mari deixa aqui um exemplo de força de vontade, garra, fé e esperança. Agora é com cada um de nós!".

Repito: NUNCA antes a paixão de um homem por sua mulher sensibilizou com tanta força uma cidade inteira. A história de Thiago e Mariana poderia muito bem ser o roteiro de algum filme, a letra de alguma canção. Mas a vida não imita a arte. Caso contrário, o final dessa história certamente seria diferente. Vai em paz, Mariana. Hoje a noite, enquanto aqui as lágrimas ainda rolam, brilha mais uma estrelinha no céu.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Apenas um sonho ruim

Essa noite tive um sonho ruim. Algo que me fez lembrar dos pesadelos da infância. Sonhei que, de alguma forma, matava todas as pessoas que amo e que estão próximas a mim. Sonhei que meu destino seria ficar sozinho. E que a causa dessa solidão estava em minhas próprias atitudes. Lembrei do meu primeiro pesadelo. Nele também estava sozinho. Deitado, aos 6 anos de idade, em um quarto escuro. Uma mão com uma luva preta tentou me asfixiar. Lembro como se fosse hoje do pânico que me tomou. Acordei sem ar, sem chão. Só me restava o medo. E por alguns segundos, a solidão.

Acredito que esse seja um temor que toma conta de todos, ao menos uma vez na vida. Ninguém é auto-confiante o suficiente para dizer que nunca sentiu medo de viver sozinho. Ser condenado a não poder dividir alegrias ou tristezas com alguém. É pra fugir disso que as pessoas se mascaram, tentam parecer diferentes do que são. Medo de que não sejam aceitas no seu âmbito social. Medo de morrerem sozinhas. Mais do que qualquer pesadelo, é a incerteza que amedronta. Sonhar que você estava descendo uma escada até pisar no vazio e acordar pode ser desconfortável. Mas acordar e sentir-se só, pode ter certeza, meu amigo, é muito pior.

Algo que sempre me inquietou nos sonhos foi a forma como eles são construídos. Nunca sabemos exatamente como um sonho começa, como chegamos a determinado lugar. É algo tão inconsciente que construímos cidades que nunca vimos e passeamos por ruas onde nunca estivemos. Um filme que recomendo, não apenas pelo brilhantismo da história ou dos efeitos especiais, mas principalmente pelo modo como demonstra a construção dos sonhos, chama-se "A Origem", lançamento do ano passado e considerado por muitos como o melhor filme de 2010.

O que consola é saber que, ao contrário do filme, sabemos que acordar de um sonho significa realmente voltar para a realidade (ou ao menos para aquilo que chamamos de realidade). É bom acordar e ver que, no quarto ao lado, está minha mãe dormindo tranquila. Ligar o telefone e ver que recebi uma mensagem de "bom dia" da namorada. Perceber que o pior dos temores não se concretizou e que aquele pesadelo que perturbou o sono nada mais é do que isso: apenas um sonho ruim.

domingo, 23 de janeiro de 2011

O velho táxi branco, os cinco picolés e um corte de cabelo

Gostava do tempo em que chegava na rodoviária de Rio Pardo, depois de 9 ou 10 horas de viagem, e via o velho táxi do Beto nos esperando. Um cena clássica. Aquele Uno branco, estacionado na frente de todos os outros carros, apenas esperando por nós. Pensando bem, não sei se era um Uno. Talvez fosse um Mille, que nada mais é do que o mesmo carro, mas com um nome diferente. O Beto nunca aceitava que pagássemos pela corrida. “Deixa que tua vó paga todas as corridas no fim do mês”, dizia ele. Hoje o Beto tem um corsa (ou algo parecido, nunca fui bom com nomes de carros), ar-condicionado, trava elétrica. E como as visitas a Rio Pardo passaram a ser bem mais frequentes, ele não vai mais me esperar na rodoviária.

Sinto falta do tempo em que se comprava 5 picolés com apenas um real. Da época em que jogar bola no meio da rua era normal. As traves eram feitas com havaianas, milimetricamente posicionadas para que nenhum time tivesse vantagem. Após os jogos, beber refrigerante com os amigos sentado no muro de algum vizinho. Ou comprar sacolé – ainda sinto o sabor do de laranja – e sentar no fio da calçada, falando besteira, reclamando das dificuldades da vida de um adolescente e vendo os carros passarem. Mas nada se compara ao carro de picolé passando pela rua. A gurizada com o dinheirinho contado, moedinhas conquistadas com suor, apenas para comprar 5 picolés – aguados e de qualidade duvidosa. Hoje, a brincadeira custa 50% a mais. “Cinco picolés por apenas um e cinquenta”, grita o auto-falante do carro. Mas não soa tão bem quanto soava na minha adolescência.

Até mesmo ir ao barbeiro já não passa a mesma sensação. A barbearia do Renato era arejada com um ventilador velho, tinha edições da 4 Rodas e da Super Interessante de 3 anos antes. Um rádio de pilha, velho, sempre sintonizado na Rádio Rio Pardo. Ir cortar o cabelo era ter a certeza de pagar 5 reais pelo corte e ver sempre as mesmas máquinas, bastante usadas mas sempre confiáveis. Hoje, até ar-condicionado o Renato colocou no pequeno salão. As máquinas não são tão velhas. Tem até uma que se molda à orelha, para cortar melhor. O corte agora custa 6 reais durante a semana e 7 aos sábados. E o Renato, quem diria, voltou a estudar. Me contou ontem, todo faceiro. As coisas mudam tão rápido, nem dá tempo de acompanhar. Só o velho radinho de pilha da barbearia continua, sempre fiel, mesclando notícias da cidade com as velhas canções do Roberto Carlos. Que bom que ao menos algumas continuam sempre iguais.

Jovem Foca