Gostava do tempo em que chegava na rodoviária de Rio Pardo, depois de 9 ou 10 horas de viagem, e via o velho táxi do Beto nos esperando. Um cena clássica. Aquele Uno branco, estacionado na frente de todos os outros carros, apenas esperando por nós. Pensando bem, não sei se era um Uno. Talvez fosse um Mille, que nada mais é do que o mesmo carro, mas com um nome diferente. O Beto nunca aceitava que pagássemos pela corrida. “Deixa que tua vó paga todas as corridas no fim do mês”, dizia ele. Hoje o Beto tem um corsa (ou algo parecido, nunca fui bom com nomes de carros), ar-condicionado, trava elétrica. E como as visitas a Rio Pardo passaram a ser bem mais frequentes, ele não vai mais me esperar na rodoviária.
Sinto falta do tempo em que se comprava 5 picolés com apenas um real. Da época em que jogar bola no meio da rua era normal. As traves eram feitas com havaianas, milimetricamente posicionadas para que nenhum time tivesse vantagem. Após os jogos, beber refrigerante com os amigos sentado no muro de algum vizinho. Ou comprar sacolé – ainda sinto o sabor do de laranja – e sentar no fio da calçada, falando besteira, reclamando das dificuldades da vida de um adolescente e vendo os carros passarem. Mas nada se compara ao carro de picolé passando pela rua. A gurizada com o dinheirinho contado, moedinhas conquistadas com suor, apenas para comprar 5 picolés – aguados e de qualidade duvidosa. Hoje, a brincadeira custa 50% a mais. “Cinco picolés por apenas um e cinquenta”, grita o auto-falante do carro. Mas não soa tão bem quanto soava na minha adolescência.
Até mesmo ir ao barbeiro já não passa a mesma sensação. A barbearia do Renato era arejada com um ventilador velho, tinha edições da 4 Rodas e da Super Interessante de 3 anos antes. Um rádio de pilha, velho, sempre sintonizado na Rádio Rio Pardo. Ir cortar o cabelo era ter a certeza de pagar 5 reais pelo corte e ver sempre as mesmas máquinas, bastante usadas mas sempre confiáveis. Hoje, até ar-condicionado o Renato colocou no pequeno salão. As máquinas não são tão velhas. Tem até uma que se molda à orelha, para cortar melhor. O corte agora custa 6 reais durante a semana e 7 aos sábados. E o Renato, quem diria, voltou a estudar. Me contou ontem, todo faceiro. As coisas mudam tão rápido, nem dá tempo de acompanhar. Só o velho radinho de pilha da barbearia continua, sempre fiel, mesclando notícias da cidade com as velhas canções do Roberto Carlos. Que bom que ao menos algumas continuam sempre iguais.
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domingo, 23 de janeiro de 2011
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
Crônica - Um dia de PRs: dos 3W ao "Eu já sabia"
Tudo começou com uma mão que tremia, uma voz que gaguejava e um olhar que não conseguia se firmar no papel. Era a blogueira Juliana Xavier que tentava concentrar-se durante o cerimonial da primeira palestra do dia, com Carolina Palma. Aliás, que dia! Uma programação inteira idealizada apenas por alunos. Mesmo estando longe do litoral, as golfinhas chegaram a tempo na cidade (sabe-se lá como). Sob olhares atentos, a palestrante da manhã, @carolpalma, iniciou seu discurso. Os focas twitteiros (inclusive eu) publicavam cada assunto tratado, cada frase de efeito, cada novo ideal. Sorridente, simpática e bela (muito bela), a golfinha mostrava que o resultado do sucesso profissional estava muito além do rostinho bonito. O público levantou questões e o mestre-raposão (sempre ele) saciou suas três curiosidades sobre o tema.
Durante a tarde, as palestrantes do dia encontraram-se. Era uma mesa de discussão proposta pelos três acadêmicos que organizaram a programação do dia (Juliana, Dennis e Matheus). O tema foi dividido por @carolpalma e @mairarolim. O objetivo era debater a importância do "fantástico mundo da internet", o acesso à dimensão dos pássaros azuis e das baleias voadoras, e qual o papel de focas, golfinhos, galos e afins na sociedade. Se há um consenso sobre o assunto, se chegaram a alguma conclusão em comum, ninguém sabe. Mas a proposta rendeu duas horas de boa conversa. E terminado o bate-papo, era a hora de Carolina Palma voltar para sua casa de três "Ws".
A noite chega e @mairarolim é a estrela. Mesmo com o cenário amedrontador (afinal, palestrar no anfiteatro do bloco 18 é algo que assusta), a golfinha tentou não demonstrar nervosismo. É verdade que não parava de "dançar" sobre o palco. Ainda assim, a PR (não a chame de RP) que veio da BOCA (e não chame a BOCA de agência) conquistou a atenção do público. Despojada, alegre e sem medo de mostrar-se como um ser-humano, gaguejou, sorriu e ensinou que o mais importante na comunicação é saber relacionar-se com as pessoas. Os exemplos da Olympikus - como o lançamento da nova camisa do Flamengo, aniversário do clube e o case "Eu já sabia" (sobre as Olimpíadas de 2016) - foram os pontos altos da noite, gerando perguntas e inquietações. E ao final, a sensação de mais um dia vencido, mais uma batalha travada e conhecimento adquirido. O dia foi das mulheres, mas o aprendizado independe do sexo. Elas dividiram um tema, uma mesa de discussão e a programação idealizada pelos acadêmicos. Surpresos pelo sucesso? Pois eu já sabia.
Terça de improvisos e incertezas
Todos esperavam o fracasso. Aliás, tudo indicava que iriam fracassar. O tão esperado Aquiles fora impossibilitado de vir. Atingido no calcanhar, era um visitante descartado. Mas, e agora? Todos no reino já haviam sido convocados para o pronunciamento do grande guerreiro. As golfinhas desesperavam-se, enquanto a Golfinha-mestra pensava em uma solução. Mas foi a Harpia-rainha quem resolveu a questão. Lembrou-se de um habitante, em um reino vizinho, que poderia ajudar. Ele não era um grande guerreiro/comunicador. Tampouco poderia ser chamado de foca ou golfinho. Mas o mago das leis colocou-se à disposição para passar um pouco de seu conhecimento aos habitantes do mundo da comunicação.
A notícia logo espalhou-se pelo mundo da twittolândia. Alguns incrédulos apenas reclamavam. A conversa não tinha apoio de música, vídeo ou slides. Nos primeiros minutos, o mago parecia deslocado. Era perceptível seu nervosismo. Ainda assim, a previsão não se confirmou. Pelo contrário, o visitante agradou o público. Cada fala era razão para uma nova discussão. Cada resposta gerava um novo questionamento, criando um diálogo contínuo. O fracasso virou sucesso.
A conversa continuou sem nenhum outro problema. Ninguém dormiu ou morreu entediado. Na verdade, a discussão estava muito efervescente. Até a Harpia-rainha manifestou sua posição e colaborou com a conversa. A arena de batalha fora transformada em uma área de transmissão conhecimento. Mas o tempo chegava ao fim. Os portais do mundo da twittolândia se fechavam enquanto o mago das leis pronunciava suas últimas palavras. Os guerreiros/comunicadores revoltavam-se pela falta de tempo para realizarem suas perguntas. A rainha agradecia ao mago pela sua colaboração, enquanto ele corria para voltar ao seu mundo antes do toque de recolher. E as golfinhas, felizes e sorridentes, apenas pensavam que, afinal, a noite não estava tão ruim assim.
quarta-feira, 22 de setembro de 2010
A Harpia twitteira e o mundo dos pássaros azuis (o que você não viu na palestra de Bárbara Nickel)
Foi numa terça-feira que a bondosa Harpia twitteira pousou na Unisc. Ela, que vive no lugar em que o relógio marca sempre a mesma hora, viu o tempo esvair-se durante a curta manhã chuvosa, na província de "Lá onde Santa Cruz perdeu as botas". No início parecia solitária. Não conhecia o território em que havia pousado, tampouco seus inusitados habitantes. Mas logo encontrou conhecidos. O mestre-raposão foi recepcioná-la e ensinar-lhe as regras de sobrevivência naquela terra sem lei. As golfinhas também estavam por perto, para dar assistência caso a visitante precisasse. Outros seres amigáveis transitavam por ali. Um grupo de focas (velhos conhecidos da twittolândia) aguardava ansiosamente por seus ensinamentos.
Os bravos guerreiros, que já saudaram outra Harpia, no início do ano e enfrentaram o terrível Krukru há poucas semanas, tinham agora a incumbência de aprender tudo quanto possível sobre o mundo misterioso da internet (um mundo em que baleias voam, gangs coloridas se formam e informações atravessam o oceano em segundos). Não era uma tarefa fácil. Mas a Harpia twitteira fez o melhor possível para ensinar as melhores rotas a se navegar no mundo virtual aos focas, golfinhas, raposas ou qualquer outro ser presente nesse mundo místico.
Enquanto repassava seus conhecimentos, sob o olhar atento e curioso dos aventureiros, a Harpia twitteira via quatro focas transmitindo sua mensagem ao mundo da twittolândia. Foram duas horas de palavras ao vento, disseminando conhecimento pela província. Dois seres desavisados, pouco conhecedores dos perigos do mundo virtual, caíram em um sono profundo, uma pequena armadilha da rede. Ainda assim, o povo celebrou os ensinamentos da guerreira e lamentou sua partida. Ela novamente alçou voo rumo ao mundo em que reinam os pássaros azuis e onde o tempo não passa.
Os bravos guerreiros, que já saudaram outra Harpia, no início do ano e enfrentaram o terrível Krukru há poucas semanas, tinham agora a incumbência de aprender tudo quanto possível sobre o mundo misterioso da internet (um mundo em que baleias voam, gangs coloridas se formam e informações atravessam o oceano em segundos). Não era uma tarefa fácil. Mas a Harpia twitteira fez o melhor possível para ensinar as melhores rotas a se navegar no mundo virtual aos focas, golfinhas, raposas ou qualquer outro ser presente nesse mundo místico.
Enquanto repassava seus conhecimentos, sob o olhar atento e curioso dos aventureiros, a Harpia twitteira via quatro focas transmitindo sua mensagem ao mundo da twittolândia. Foram duas horas de palavras ao vento, disseminando conhecimento pela província. Dois seres desavisados, pouco conhecedores dos perigos do mundo virtual, caíram em um sono profundo, uma pequena armadilha da rede. Ainda assim, o povo celebrou os ensinamentos da guerreira e lamentou sua partida. Ela novamente alçou voo rumo ao mundo em que reinam os pássaros azuis e onde o tempo não passa.
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quarta-feira, 15 de setembro de 2010
Quando não se tem o que falar
Esse é um post inútil. Ele é inspirado naqueles clássicos capítulos inúteis das obras machadianas. A verdade é que preciso escrever, e só. Não tenho um tema específico na cabeça, nem quero expor nenhuma frustração. Apenas quero escrever pela necessidade de escrever. Parece besteira, mas esse foi um comentário feito pelo escritor Daniel Galera durante a Feira do Livro, aqui em Santa Cruz do Sul. É essa necessidade de escrever que dá vida à literatura. É simplesmente uma ânsia, uma angustia que toma o peito e que cria essa vontade de se comunicar, de falar algo a alguém, mesmo sem nada para falar.
Junto com isso, vem a responsabilidade de escrever de forma criativa, de ser sempre atraente, de prender o leitor no texto. É uma tarefa desgastante e eterna. Sempre que penso nisso, me imagino daqui a alguns anos, em algum periódico de grande porte (se tudo der certo), como cronista, colunista ou seja lá o que for. Penso na pressão de escrever diariamente para 100, 200, 300 mil pessoas. Penso no quanto é difícil fazer algo diferente a cada dia e encarar o fato de que, às vezes (assim como agora), não se tem sobre o que falar, apenas uma necessidade de escrever.
O mais triste de tudo é lembrar que não é a primeira vez que escrevo sem ter nada para dizer. Os lapsos de criatividade estão mais frequentes, e nem posso culpar a idade por isso. E, falando de novo sobre "ser criativo", é um porre ter que finalizar o texto sempre de forma original, genial e atraente. Deve existir algum elixir sagrado que os grandes cronistas brasileiros bebem para ganhar inspiração. Um dia eu descubro o nome do bar onde vendem esse elixir. Daí, mando servir uma rodada de criatividade por minha conta. Ou melhor, anota na conta no jornal, por favor.
Junto com isso, vem a responsabilidade de escrever de forma criativa, de ser sempre atraente, de prender o leitor no texto. É uma tarefa desgastante e eterna. Sempre que penso nisso, me imagino daqui a alguns anos, em algum periódico de grande porte (se tudo der certo), como cronista, colunista ou seja lá o que for. Penso na pressão de escrever diariamente para 100, 200, 300 mil pessoas. Penso no quanto é difícil fazer algo diferente a cada dia e encarar o fato de que, às vezes (assim como agora), não se tem sobre o que falar, apenas uma necessidade de escrever.
O mais triste de tudo é lembrar que não é a primeira vez que escrevo sem ter nada para dizer. Os lapsos de criatividade estão mais frequentes, e nem posso culpar a idade por isso. E, falando de novo sobre "ser criativo", é um porre ter que finalizar o texto sempre de forma original, genial e atraente. Deve existir algum elixir sagrado que os grandes cronistas brasileiros bebem para ganhar inspiração. Um dia eu descubro o nome do bar onde vendem esse elixir. Daí, mando servir uma rodada de criatividade por minha conta. Ou melhor, anota na conta no jornal, por favor.
sábado, 4 de setembro de 2010
Os luxos da terceira idade
Todos os idosos merecem alguns luxos. Depois de tantos anos aguentando as chatices da vida, nada mais justo do que um idoso ganhar o direito de ser mal-humorado. Ele merece o poder de colocar a culpa de tudo nos outros, afinal, ele passou tempo demais levando a culpa só para si. Merece contar a mesma história inúmeras vezes, com o mesmo entusiasmo da primeira vez. Ganha o direito de se emocionar facilmente, chorar com um simples "parabéns" no seu aniversário. Sim, ser idoso confere merecidos direitos àqueles que passaram por tantas coisas para nos dar uma vida melhor.
Isso tudo (dentre muitas outras coisas) deveria estar estampado no Estatuto do Idoso. Talvez, evitasse reclamações de filhos e netos que não compreendem essa necessidade da terceira idade. Essa juventude que gosta de dizer apenas que seus pais e/ou avós estão "caducando". Não entendem a beleza da melhor idade. Para muitos desses jovens, o mais fácil mesmo é jogar seus "velhos" em asilos (ou casas geriátricas, se quisermos ser politicamente corretos). A justificativa é sempre a mesma: "é para o seu bem. Lá, vão cuidar de você e te dar a atenção que você merece." E com um aperto no peito, com o sentimento de rejeição ardendo, os senhores e senhoras que educaram e deram de tudo aos seus filhos, partem. Sentem-se um estorvo. Pensam que estão atrapalhando sua prole. Perdem o único direito que realmente tem valor: o de estar perto de sua família.
Não sei quem formulou o Estatuto do Idoso, mas ele deixou pontos importantes de fora. Se eu pudesse, acrescentaria alguns tópicos. Um deles é que todo o idoso tem o dever de se divertir. Sim, dever. Ele deveria ir a centros com atividades esportivas, festas, viagens, tudo pago pelo governo. Ele deveria receber o direito básico de sentir-se jovem em espírito. Sexo não deveria ser um tabu, e a conscientização para exames regulares deveria ser melhor difundida.
Não escrevo esse texto pensando em um idoso em especial. Na verdade, minha inspiração veio do convívio com meus avós, mas é genérico. A única defesa que faço é ao direito deles ficarem mal-humorados, contarem suas histórias repetidas vezes, rirem, chorarem, ou simplesmente estarem próximos à sua família. Faço isso em respeito aos meus avós, na esperança de que, algum dia, meus netos façam isso por mim.
Isso tudo (dentre muitas outras coisas) deveria estar estampado no Estatuto do Idoso. Talvez, evitasse reclamações de filhos e netos que não compreendem essa necessidade da terceira idade. Essa juventude que gosta de dizer apenas que seus pais e/ou avós estão "caducando". Não entendem a beleza da melhor idade. Para muitos desses jovens, o mais fácil mesmo é jogar seus "velhos" em asilos (ou casas geriátricas, se quisermos ser politicamente corretos). A justificativa é sempre a mesma: "é para o seu bem. Lá, vão cuidar de você e te dar a atenção que você merece." E com um aperto no peito, com o sentimento de rejeição ardendo, os senhores e senhoras que educaram e deram de tudo aos seus filhos, partem. Sentem-se um estorvo. Pensam que estão atrapalhando sua prole. Perdem o único direito que realmente tem valor: o de estar perto de sua família.
Não sei quem formulou o Estatuto do Idoso, mas ele deixou pontos importantes de fora. Se eu pudesse, acrescentaria alguns tópicos. Um deles é que todo o idoso tem o dever de se divertir. Sim, dever. Ele deveria ir a centros com atividades esportivas, festas, viagens, tudo pago pelo governo. Ele deveria receber o direito básico de sentir-se jovem em espírito. Sexo não deveria ser um tabu, e a conscientização para exames regulares deveria ser melhor difundida.
Não escrevo esse texto pensando em um idoso em especial. Na verdade, minha inspiração veio do convívio com meus avós, mas é genérico. A única defesa que faço é ao direito deles ficarem mal-humorados, contarem suas histórias repetidas vezes, rirem, chorarem, ou simplesmente estarem próximos à sua família. Faço isso em respeito aos meus avós, na esperança de que, algum dia, meus netos façam isso por mim.
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
Um olhar sobre a realidade
Toda vez que saio à rua, procuro por algo diferente. Deve ser o vício da universidade, aquela velha história sobre o "olhar jornalístico" e a busca pelo inusitado. Mas nos últimos tempos, essa busca deixou de ser por pautas. Tudo o que vejo de estranho me inspira uma crônica. E foi em uma dessas observações que presenciei o seguinte fato.
Era início de tarde. Indo para a Unisc, passei por uma obra, que já faz parte da minha rotina. Uma obra que, normalmente, não me chama a atenção. Mas nesse dia, passei pela construção e resolvi observar aqueles que ali trabalhavam. Foi quando um senhor despertou meu interesse. De pé, ao lado da obra, aparentava já ter passado da faixa dos 70. De óculos, calça e camisa sujas, ficou por alguns segundos parado, observando os demais trabalhadores.
Por instantes, pensei que fosse apenas outro curioso, assim como eu, que estivesse a observar aqueles que ali trabalhavam. Quando o interesse já havia passado e meu rosto se voltava para frente, aquele mesmo senhor abaixou-se para pegar uma pá e se pôs a encher um carrinho de mão com brita. Aquele idoso, com aparência frágil, roupa suja, olhos cansados, estava carregando peso, enchendo um carrinho de mão, trabalhando duro naquela construção. E hoje, enquanto vinha novamente para a Unisc, vi outra vez aquele senhor. Camisa xadrez, aquele mesmo óculos e um boné para proteger a cabeça da leve brisa que caia. O observei por alguns segundos, carregando outra carga de brita para dentro do prédio em construção.
Não sei por quê, mas aqueles breves segundos me marcaram. Talvez, ver aquele senhor ali, trabalhando, tenha me lembrado meu avô, que ainda trabalha. Fico pensando, será que daqui uns dez anos, quando meu avô também tiver na casa dos 70, ele vai estar naquela situação, trabalhando, levantando peso? E meus pais? Será que meu pai estará trabalhando aos 70, ou minha mãe? Não consigo aceitar que a terceira idade perca aquela aura, aquela magia que eu via na infância, quando pensava que meus bisavós eram as pessoas mais felizes do mundo, pois finalmente podiam aproveitar a vida, sem preocupações com trabalho, cuidar de crianças, dinheiro. É frustrante pensar que, talvez, meus pais não tenham esses anos de descanso. Que eles trabalharão até o fim da vida. Que eu não poderei proporcionar o conforto que merecem. Pode ser uma preocupação boba e sem sentido, eu sei. Mas aquele breve instante me fez pensar.
Era início de tarde. Indo para a Unisc, passei por uma obra, que já faz parte da minha rotina. Uma obra que, normalmente, não me chama a atenção. Mas nesse dia, passei pela construção e resolvi observar aqueles que ali trabalhavam. Foi quando um senhor despertou meu interesse. De pé, ao lado da obra, aparentava já ter passado da faixa dos 70. De óculos, calça e camisa sujas, ficou por alguns segundos parado, observando os demais trabalhadores.
Por instantes, pensei que fosse apenas outro curioso, assim como eu, que estivesse a observar aqueles que ali trabalhavam. Quando o interesse já havia passado e meu rosto se voltava para frente, aquele mesmo senhor abaixou-se para pegar uma pá e se pôs a encher um carrinho de mão com brita. Aquele idoso, com aparência frágil, roupa suja, olhos cansados, estava carregando peso, enchendo um carrinho de mão, trabalhando duro naquela construção. E hoje, enquanto vinha novamente para a Unisc, vi outra vez aquele senhor. Camisa xadrez, aquele mesmo óculos e um boné para proteger a cabeça da leve brisa que caia. O observei por alguns segundos, carregando outra carga de brita para dentro do prédio em construção.
Não sei por quê, mas aqueles breves segundos me marcaram. Talvez, ver aquele senhor ali, trabalhando, tenha me lembrado meu avô, que ainda trabalha. Fico pensando, será que daqui uns dez anos, quando meu avô também tiver na casa dos 70, ele vai estar naquela situação, trabalhando, levantando peso? E meus pais? Será que meu pai estará trabalhando aos 70, ou minha mãe? Não consigo aceitar que a terceira idade perca aquela aura, aquela magia que eu via na infância, quando pensava que meus bisavós eram as pessoas mais felizes do mundo, pois finalmente podiam aproveitar a vida, sem preocupações com trabalho, cuidar de crianças, dinheiro. É frustrante pensar que, talvez, meus pais não tenham esses anos de descanso. Que eles trabalharão até o fim da vida. Que eu não poderei proporcionar o conforto que merecem. Pode ser uma preocupação boba e sem sentido, eu sei. Mas aquele breve instante me fez pensar.
terça-feira, 17 de agosto de 2010
O que um homem não suporta em um relacionamento
Antes de ler o restante do texto, você deve concordar com os Termos de leitura:
1 - Tenho consciência de que este é um post extremamente machista e não manifestarei qualquer opinião contrária à do autor.
2 - Prometo deixar um comentário caso considere o texto digno de tal feito.
3 - Concordo com os Termos de leitura e aceito ler a crônica sem jamais processar o autor do blog por qualquer possível ofensa quanto à minha sexualidade, posição política ou religião.
Dia desses twittei que estava pensando em um tema para uma nova crônica, aqui mesmo para o blog. Foi quando uma amiga de longa data sugeriu (também via twitter) que escrevesse sobre a arte dos relacionamentos. Confesso que não sou a pessoa mais indicada para escrever sobre isso. Na verdade, não acredito em amores eternos nem em paixão à primeira vista. Não mais.
Mas posso escrever sobre atitudes femininas insuportáveis. E acreditem, muitas de suas atitudes são insuportáveis. Afinal, colocar a culpa de seu mau humor (diariamente) na TPM, fazer cenas de ciúmes pelo simples fato de uma colega simpática (e gostosa) cumprimentar ou mandar escolher entre o namoro e o futebol com os amigos, não podem ser consideradas atitudes maduras. Ok, a colega simpática não precisaria usar uma roupa tão curta, nem ser tão simpática. E o futebol com os amigos não precisaria sempre terminar em um bar, cercado por amigos, mas principalmente, por amigas.
Mas, mulheres da minha vida, isso não lhes garante o direito de serem tão mau humoradas! Entendemos que uma vez por mês vocês sintam ódio do mundo. Se eu sangrasse mensalmente, também ficaria muito irritado. Se tivesse que manter as axilas, as pernas e (em muitos casos) a genitália depiladas, também odiaria o mundo. Se tivesse que sentir dores por nove meses, carregando um bebê que me dará dor de cabeça pelo resto da vida, sentiria raiva de todo ser vivo. Mas agora parem e pensem: com tantas coisas na cabeça, problemas, depilação, sangramentos, por que diabos insistem em implicar com a pobre da colega gostosa, digo, simpática?
Homem algum suporta o ciúme doentio da namorada (esposa, peguete, namorida, tanto faz). Não sou eu quem diz isso, mas todos os homens que represento nesse momento. Um homem quer apenas ficar em paz, não discutir relação. Quer jogar futebol e sair pra beber com os amigos, não ficar enfornado dentro de casa assistindo Titanic. E acredite, se ele ficar em casa por obrigação, não vai querer assistir filme algum. Vai, no máximo, querer assistir algum canal de esportes. Ou transar. E tenha certeza, o humor dele estará péssimo. Então, não inventem de fazer cena de carente. Não comecem a reclamar do canal de esportes ou da falta de atenção, sob pena de terminarem a noite sozinhas, chorando em seus lençóis. E o mais importante: nunca, mas nunca mesmo, comecem uma discussão com o namorado por causa de um simples "oi" daquela amiga gostosa.
1 - Tenho consciência de que este é um post extremamente machista e não manifestarei qualquer opinião contrária à do autor.
2 - Prometo deixar um comentário caso considere o texto digno de tal feito.
3 - Concordo com os Termos de leitura e aceito ler a crônica sem jamais processar o autor do blog por qualquer possível ofensa quanto à minha sexualidade, posição política ou religião.
Dia desses twittei que estava pensando em um tema para uma nova crônica, aqui mesmo para o blog. Foi quando uma amiga de longa data sugeriu (também via twitter) que escrevesse sobre a arte dos relacionamentos. Confesso que não sou a pessoa mais indicada para escrever sobre isso. Na verdade, não acredito em amores eternos nem em paixão à primeira vista. Não mais.
Mas posso escrever sobre atitudes femininas insuportáveis. E acreditem, muitas de suas atitudes são insuportáveis. Afinal, colocar a culpa de seu mau humor (diariamente) na TPM, fazer cenas de ciúmes pelo simples fato de uma colega simpática (e gostosa) cumprimentar ou mandar escolher entre o namoro e o futebol com os amigos, não podem ser consideradas atitudes maduras. Ok, a colega simpática não precisaria usar uma roupa tão curta, nem ser tão simpática. E o futebol com os amigos não precisaria sempre terminar em um bar, cercado por amigos, mas principalmente, por amigas.
Mas, mulheres da minha vida, isso não lhes garante o direito de serem tão mau humoradas! Entendemos que uma vez por mês vocês sintam ódio do mundo. Se eu sangrasse mensalmente, também ficaria muito irritado. Se tivesse que manter as axilas, as pernas e (em muitos casos) a genitália depiladas, também odiaria o mundo. Se tivesse que sentir dores por nove meses, carregando um bebê que me dará dor de cabeça pelo resto da vida, sentiria raiva de todo ser vivo. Mas agora parem e pensem: com tantas coisas na cabeça, problemas, depilação, sangramentos, por que diabos insistem em implicar com a pobre da colega gostosa, digo, simpática?
Homem algum suporta o ciúme doentio da namorada (esposa, peguete, namorida, tanto faz). Não sou eu quem diz isso, mas todos os homens que represento nesse momento. Um homem quer apenas ficar em paz, não discutir relação. Quer jogar futebol e sair pra beber com os amigos, não ficar enfornado dentro de casa assistindo Titanic. E acredite, se ele ficar em casa por obrigação, não vai querer assistir filme algum. Vai, no máximo, querer assistir algum canal de esportes. Ou transar. E tenha certeza, o humor dele estará péssimo. Então, não inventem de fazer cena de carente. Não comecem a reclamar do canal de esportes ou da falta de atenção, sob pena de terminarem a noite sozinhas, chorando em seus lençóis. E o mais importante: nunca, mas nunca mesmo, comecem uma discussão com o namorado por causa de um simples "oi" daquela amiga gostosa.
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sexta-feira, 13 de agosto de 2010
A vida na sexta-feira 13
Deveria ser um dia normal. Mas não é, e sabemos disso. A sexta-feira 13 é um símbolo popular do azar, mas mais do que isso, é um símbolo das incertezas. Parece besteira, mas muitos deixam de assistir filmes de terror em uma sexta-feira 13. Não é medo, é precaução. Afinal, ninguém acredita em bruxas, monstros, vampiros (vampiros tradicionais, não esses que brilham como fadas), mas que eles existem, existem.
Superstição é a palavra da moda nesse dia. É como se todos assumissem suas dúvidas perante o inexplicável. Ou, para alguns, o momento de demonstrar toda sua bravura, pronunciando palavras enfadonhas diante um espelho, à meia-noite, visitando cemitérios, atravessando portais místicos localizados em baixo de escadas, encarando gatos pretos, sem medo ou receio. Sim, hora de demonstrar ao mundo toda sua ousadia.
Aliás, tudo que fazemos numa sexta-feira 13 parece diferente do comum. É como se fugíssemos da rotina, mesmo que tenhamos um dia rigorosamente igual aos dias anteriores. Mas aquela sensação de que é um dia de azar, um dia em que a superstição está em todos os atos e lugares, nos transforma, e transforma nosso dia. Eu mesmo acordei após um pesadelo. E nunca tenho pesadelos. Exceto hoje.
Todos os dias deveriam ser tratados como uma sexta-feira 13. Com a mesma superstição, a mesma sede por algo diferente. Uma tentativa de fuga da rotina. Talvez as coisas deixassem de ser tão chatas e fossem mais interessantes. Sentir medo, alegria, frustração e esperança em um mesmo dia, todos os dias, não é um crime, mas uma missão. Mostra que vivemos com intensidade. Muito melhor do que simplesmente sentarmos enquanto a vida passa.
Superstição é a palavra da moda nesse dia. É como se todos assumissem suas dúvidas perante o inexplicável. Ou, para alguns, o momento de demonstrar toda sua bravura, pronunciando palavras enfadonhas diante um espelho, à meia-noite, visitando cemitérios, atravessando portais místicos localizados em baixo de escadas, encarando gatos pretos, sem medo ou receio. Sim, hora de demonstrar ao mundo toda sua ousadia.
Aliás, tudo que fazemos numa sexta-feira 13 parece diferente do comum. É como se fugíssemos da rotina, mesmo que tenhamos um dia rigorosamente igual aos dias anteriores. Mas aquela sensação de que é um dia de azar, um dia em que a superstição está em todos os atos e lugares, nos transforma, e transforma nosso dia. Eu mesmo acordei após um pesadelo. E nunca tenho pesadelos. Exceto hoje.
Todos os dias deveriam ser tratados como uma sexta-feira 13. Com a mesma superstição, a mesma sede por algo diferente. Uma tentativa de fuga da rotina. Talvez as coisas deixassem de ser tão chatas e fossem mais interessantes. Sentir medo, alegria, frustração e esperança em um mesmo dia, todos os dias, não é um crime, mas uma missão. Mostra que vivemos com intensidade. Muito melhor do que simplesmente sentarmos enquanto a vida passa.
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quinta-feira, 12 de agosto de 2010
O terrível Krukru e a aprendiz de jornalista
E com seus ataques de baixo calão, o Terrível Krukru desfere golpes poderosos nos frágeis aprendizes de jornalista. Com seu olhar superior, consegue visualizar todos os humildes focas, perplexos, sem reação. Mas para compreendermos essa história, vamos voltar na linha do tempo até o dia anterior.
Domingo, dia dos pais. Data terrível para buscar um desconhecido no aeroporto. Mas ele não era tão desconhecido assim. O Terrível Krukru era uma lenda no Fantástico Mundo da Televisão. E para encontrá-lo, enviamos as golfinhas de elite V. e M.. As golfinhas eram simpáticas e tagarelas, mas ao escoltá-lo até a província de "Lá Onde Santa Cruz perdeu as Botas", descobriram que o Terrível Krukru não era nada simpático. As pequenas V. e M. tentavam acalmá-lo, procuravam distraí-lo, mas apenas recebiam golpes e mais golpes da fera indomável. "Quer ir jantar?" perguntaram, humildemente, as pobres golfinhas. "Sabem o que quero! Preciso apenas ficar sozinho, em minha gruta escura e gélida, para assistir ao Fantástico Mundo da Televisão", proferiu Krukru com sua voz de trovão. E esse foi seu golpe derradeiro na primeira batalha. A nova luta seria apenas segunda-feira pela manhã.
A arena estava quase lotada na segunda-feira. Muitos curiosos queriam ver o Terrível Krukru, ídolo da garotada. As golfinhas, nocauteadas no dia anterior, trouxeram reforço. Além de outras golfinhas, focas por todos os lados, prontos para o ataque ao monstro, que ainda estava à espreita, apenas observando o movimento. Ele sabia que era a estrela da batalha, e sabia também como desempenhar tal papel. Além de todos os soldados, os comandantes também estavam presentes. A estrategista, mestra-golfinha, apenas coordenava suas aprendizes. Enquanto isso, os mestres-focas, ou melhor, mestres-raposas, já estavam prontos. A raposa mestra posicionava-se como uma espécie de juíza, enquanto o raposão apenas observava seus focas. Tudo pronto, luzes, som, e o espetáculo começa.
Já em seu primeiro ataque, Krukru mostra sua força. São golpes firmes e certeiros. Com seu estilo de luta, conquista a torcida. Focas e golfinhos unidos, mas sem forças para combaterem o terrível monstro daquela terra tão longínqua. Krukru pede água, e os focas lançam-se numa tentativa desesperada de reação. Em vão. Krukru mantém a guarda e atinge seus oponentes com outro golpe certeiro. O mestre-raposão tenta ajudar seus pupilos, mas é barrado. As regras do jogo são claras, e os mestres não podem se envolver nas batalhas de seus discípulos. Já ao fim da luta, uma aprendiz de jornalista o ataca, desesperadamente. Flashs quase o paralizam. Mas o monstro é mais forte. E com seus ataques de baixo calão, o Terrível Krukru desfere golpes poderosos nos frágeis aprendizes de jornalista. Com seu olhar superior, consegue visualizar todos os humildes focas, perplexos, sem reação. Um golpe final encerra a disputa. Nos contos da vida real, nem sempre há um final feliz.
Domingo, dia dos pais. Data terrível para buscar um desconhecido no aeroporto. Mas ele não era tão desconhecido assim. O Terrível Krukru era uma lenda no Fantástico Mundo da Televisão. E para encontrá-lo, enviamos as golfinhas de elite V. e M.. As golfinhas eram simpáticas e tagarelas, mas ao escoltá-lo até a província de "Lá Onde Santa Cruz perdeu as Botas", descobriram que o Terrível Krukru não era nada simpático. As pequenas V. e M. tentavam acalmá-lo, procuravam distraí-lo, mas apenas recebiam golpes e mais golpes da fera indomável. "Quer ir jantar?" perguntaram, humildemente, as pobres golfinhas. "Sabem o que quero! Preciso apenas ficar sozinho, em minha gruta escura e gélida, para assistir ao Fantástico Mundo da Televisão", proferiu Krukru com sua voz de trovão. E esse foi seu golpe derradeiro na primeira batalha. A nova luta seria apenas segunda-feira pela manhã.
A arena estava quase lotada na segunda-feira. Muitos curiosos queriam ver o Terrível Krukru, ídolo da garotada. As golfinhas, nocauteadas no dia anterior, trouxeram reforço. Além de outras golfinhas, focas por todos os lados, prontos para o ataque ao monstro, que ainda estava à espreita, apenas observando o movimento. Ele sabia que era a estrela da batalha, e sabia também como desempenhar tal papel. Além de todos os soldados, os comandantes também estavam presentes. A estrategista, mestra-golfinha, apenas coordenava suas aprendizes. Enquanto isso, os mestres-focas, ou melhor, mestres-raposas, já estavam prontos. A raposa mestra posicionava-se como uma espécie de juíza, enquanto o raposão apenas observava seus focas. Tudo pronto, luzes, som, e o espetáculo começa.
Já em seu primeiro ataque, Krukru mostra sua força. São golpes firmes e certeiros. Com seu estilo de luta, conquista a torcida. Focas e golfinhos unidos, mas sem forças para combaterem o terrível monstro daquela terra tão longínqua. Krukru pede água, e os focas lançam-se numa tentativa desesperada de reação. Em vão. Krukru mantém a guarda e atinge seus oponentes com outro golpe certeiro. O mestre-raposão tenta ajudar seus pupilos, mas é barrado. As regras do jogo são claras, e os mestres não podem se envolver nas batalhas de seus discípulos. Já ao fim da luta, uma aprendiz de jornalista o ataca, desesperadamente. Flashs quase o paralizam. Mas o monstro é mais forte. E com seus ataques de baixo calão, o Terrível Krukru desfere golpes poderosos nos frágeis aprendizes de jornalista. Com seu olhar superior, consegue visualizar todos os humildes focas, perplexos, sem reação. Um golpe final encerra a disputa. Nos contos da vida real, nem sempre há um final feliz.
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terça-feira, 20 de abril de 2010
Reflexos do dia a dia
Em suas mãos não havia aliança. Essa é uma observação importante que faço sempre que acho uma pessoa interessante. E com certeza, ela parecia interessante. Não prestei muita atenção no início. Apenas entrei no ônibus e procurei uma poltrona próxima a janela, do lado esquerdo. Escorei a cabeça no banco, desconfortável admito, mas bastante convidativo para alguém com sono, como era meu caso. Quase fechando os olhos, percebo o reflexo no vidro: uma silhueta esguia, pele branca, delicada, rosto de porcelana e mãos cuidadosamente pousadas sobre a bolsa em seu colo, sentada na poltrona imediatamente à minha frente.
Apesar de bonita, a jovem - de 18 ou 19 anos - não é o tipo de garota que me atrai. Um pouco de futilidade no olhar, expressão esnobe. Apesar de não atrair, não consigo tirar os olhos daquele reflexo. A verdade é que procuro algo para me distrair, e observar aquela garota é o mais próximo de "diversão" que consigo encontrar. Observo por um tempo suas mãos, tempo suficiente para analisar todos os dedos. Realmente, nada de alianças. Não consigo lembrar quando começou essa obsessão. Simplesmente observava as alianças, principalmente de casais. Com o tempo, tornou-se algo involuntário. Hoje, sempre que conheço alguém que pareça interessante, olho suas mãos. Algo discreto, uma olhada rápida, de relance.
Seu telefone tocou. O tom parecia de discussão. Reclamava por ter ido a algum lugar que não tinha o produto que precisava. Nada muito atrativo. Desligou o telefone e voltou a repousar as mãos sobre a bolsa. Ao seu lado, um senhor - trabalhador, pobre, suado - senta. Ela se aproxima ainda mais da janela. O rosto continua esnobe e o olhar perdido, distante. Continuo a observá-la por um tempo, até que adormeço. Acordo apenas 20 minutos depois. Olho imediatamente para o reflexo: ela continua estática, com o mesmo olhar, mãos ainda sobre a bolsa. O senhor ao seu lado desce, e ela volta a ocupar todo o espaço de sua poltrona.
Meus olhos continuam fixos, embora nenhum gesto mais seja revelador e sua expressão preserve a mesma monotonia do início desta observação quase antropológica. De repente, seu olhar se desvia para trás. Pelo reflexo, me enxerga. Vira-se para frente, mas em menos de um minuto volta a me olhar. Penso em virar o rosto, fechar os olhos, mas desisto de qualquer ideia. Nos observamos por apenas um instante. Ela parece curiosa, eu, desconfiado. Nos aproximamos da parada, ela vai descer no mesmo ponto que eu. Enquanto me levanto, percebo que pela terceira vez sou observado. Ela vai logo à minha frente, não pronuncia uma única palavra, não desvia mais nenhum único olhar. Apenas sai do ônibus. Vai em sentido oposto ao meu. E seu reflexo, observo uma última vez, já distante.
Apesar de bonita, a jovem - de 18 ou 19 anos - não é o tipo de garota que me atrai. Um pouco de futilidade no olhar, expressão esnobe. Apesar de não atrair, não consigo tirar os olhos daquele reflexo. A verdade é que procuro algo para me distrair, e observar aquela garota é o mais próximo de "diversão" que consigo encontrar. Observo por um tempo suas mãos, tempo suficiente para analisar todos os dedos. Realmente, nada de alianças. Não consigo lembrar quando começou essa obsessão. Simplesmente observava as alianças, principalmente de casais. Com o tempo, tornou-se algo involuntário. Hoje, sempre que conheço alguém que pareça interessante, olho suas mãos. Algo discreto, uma olhada rápida, de relance.
Seu telefone tocou. O tom parecia de discussão. Reclamava por ter ido a algum lugar que não tinha o produto que precisava. Nada muito atrativo. Desligou o telefone e voltou a repousar as mãos sobre a bolsa. Ao seu lado, um senhor - trabalhador, pobre, suado - senta. Ela se aproxima ainda mais da janela. O rosto continua esnobe e o olhar perdido, distante. Continuo a observá-la por um tempo, até que adormeço. Acordo apenas 20 minutos depois. Olho imediatamente para o reflexo: ela continua estática, com o mesmo olhar, mãos ainda sobre a bolsa. O senhor ao seu lado desce, e ela volta a ocupar todo o espaço de sua poltrona.
Meus olhos continuam fixos, embora nenhum gesto mais seja revelador e sua expressão preserve a mesma monotonia do início desta observação quase antropológica. De repente, seu olhar se desvia para trás. Pelo reflexo, me enxerga. Vira-se para frente, mas em menos de um minuto volta a me olhar. Penso em virar o rosto, fechar os olhos, mas desisto de qualquer ideia. Nos observamos por apenas um instante. Ela parece curiosa, eu, desconfiado. Nos aproximamos da parada, ela vai descer no mesmo ponto que eu. Enquanto me levanto, percebo que pela terceira vez sou observado. Ela vai logo à minha frente, não pronuncia uma única palavra, não desvia mais nenhum único olhar. Apenas sai do ônibus. Vai em sentido oposto ao meu. E seu reflexo, observo uma última vez, já distante.
quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
Enquanto se espera
O olhar se perde, longe. Não importa se sentados, ou de pé, todos esperamos. Esperamos algo que talvez nunca chegue, ou que não venha a tardar. Esperar é um ato que torna todos iguais, não importando as diferenças. É claro que uns esperam mais, outros menos. Alguns, nunca perceberam que estão à espera, e é provável que nunca venham a perceber. Esperar não tem limites. Pode ser reduzido ao simples ato de sentar-se em uma parada de ônibus enquanto aguarda seu destino. Também pode ser a eterna espera pela eternidade. Ou simplesmente, aguardar um sentido para tudo, para a vida, para o amor, para a morte. Esperar ser reconhecido, por alguém, não importa quem seja. Esperar existir, e não ser apenas mais um. Tempos de solidão esses, em que esperamos sós, em meio à multidão.
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